Este Amor Não me Serve . . .

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Este Amor Não me Serve . . .

 

 

AMAR Não é Abusar, Coagir, Nem Manipular

 

Nos dias de hoje diria que é importante entender como estão sendo construídos padrões de relacionamentos amorosos e de que forma se podem identificar, antecipando evitar contextos de violência no namoro.

 

Sobre este tema de relações e violência já muita coisa foi dita, escrita e debatida, no entanto a atenção deverá recair nos grupos de população mais jovem, no sentido de sensibilizar os cuidadores para uma educação de responsabilidade social, cívica e sexual que procure estar mais atenta aos padrões recorrentes e sinais de violência entre pares, em particular ao início de namoro entre adolescentes.

 

A educação tem o seu início em casa e não na escola, como tantas vezes é manifestada.

Ao longo dos tempos temos assistido a algumas alterações na forma como as pessoas encaram a sua vivência interna nas relações e no quanto a mesma afecta a estrutura de personalidade entre pares perante a tomada de decisão.

 

O respeito deve ser a base de qualquer relação e deve começar em cada um de nós.

 

 É necessário que cada individuo não só reconheça e saiba identificar a sua necessidade essencial, como se respeite na sua decisão de continuar ou não o seu envolvimento com aquela pessoa, pela qual se apaixonou um dia.

 

É preciso que a pessoa consiga reconhecer as suas prioridades face ao seu equilíbrio emocional, se necessário confronte o outro (par), transmitindo-lhe o que necessita, para que o casal consiga não só vencer pressões como ultrapassar momentos de vida adversos. Até porque na vida de todos os casais, as dificuldades tendem a emergir quando um dos pares começa por negar um facto essencial para a manutenção do seu bem-estar, ou por outro lado negligencia a necessidade do outro.

 

Torna-se necessário que cada um de nós ao iniciar relacionamentos não descure da sua lealdade para consigo, vigie os seus valores, defina limites e verifique factos que possam ocorrer que lhe pareçam distorcidos.

 

No caso da solidão individualizada que muitas vezes é sentida no meio da estrutura familiar é por vezes abafada pelo ritmo de vida e tarefas propostas, às quais somos “obrigados” a cumprir.

 

Em famílias em que parece existir alguma ausência de amor que muitas vezes é suprimida pela presença de bens materiais ou pela falta de disponibilidade (tempo útil de qualidade), por vezes poderá levar o adolescente a desvincular-se mais cedo e a mergulhar em relações externas de maior controlo e/ou manipulação.

 

Nestas relações por vezes assiste-se à expressão de uma necessidade de impor a sua ambição, vontade reconhecida que poderão estar associados a sinais indicadores que esboçam traços de uma vivência afectiva, preditivos de relacionamentos insuficientes, carenciados de afecto que a pouco e pouco activam manifestações em padrões relacionais de violência.

 

Por vezes a ausência de amor e a presença de solidão na adolescência potencia uma maior adesão a relacionamentos tóxicos, podendo dar indicação de comportamentos mais abusivos, manipulativos onde a coação é notada, roçando a violência no namoro.

 

A falta de proximidade, a negligência afectiva (por falta de tempo em família), a falha na presença em relações e a precária gestão de tempo que nos assiste, limita-nos tempo com qualidade para dedicar à nossa família, distorcendo comunicação, encaminhando-nos para relações mais conflituosas onde tendencialmente acabaram por perder o controlo e a assertividade educativa.

 

Todos estes aspectos integrados devem ser auscultados de forma individualizada, se assim não for acabamos por compactuar com o desequilíbrio que parece não querer abandonar as relações, e consequentemente encontraremos maior dificuldade em restabelecer o vínculo afectivo, que entretanto foi esquecido, negligenciado e perdido pelo meio do caminho.

 

Neste contexto começamos a reconhecer cada vez mais cedo uma noção de educação em que o narcisismo povoa cada vez mais em relacionamentos onde o jogo de poder, controlo e coação servem apenas para convencerem e de forma ilusória, que possuímos pertença e liderança sobre alguém.

 

Parece-se assistir cada vez mais, a relações de poder sobre o outro que são vazias e em que um dos pares legitima o outro pela justificação das suas acções, numa dimensão narcísica, onde o outro na relação está um pouco ao seu serviço sendo recorrentemente humilhado e desvalorizado (como se de um espelho se tratasse).

 

É necessário atuar revendo padrões educacionais adaptativos que consigam transmitir alguns pontos, destacando-se:

– Nas relações é necessário ser-se espontâneo e cuidadoso ao exprimir afecto, elogios, gratidão e empatia;

– Saber escutar e fazer-se escutar;

– Transmitir valores e necessidades que se entendam como básicas e essenciais a cada um dos pares;

– Não considerar que o outro saiba sempre reconhecer as nossas necessidades/vontades, transmiti-las sempre;

– Solicitar ajuda sempre que considerar importante o valor da opinião do outro, integrada no bem-estar e respeito na relação;

– Abandonar um ponto de vista que é inflexível, tentando um outro conciliatório e adaptativo;

– Saber reconhecer uma crença, sendo que a mesma é algo que pensa (ou até mesmo uma suposição), sabendo substituir pela importância da observação da acção, permitindo organizar a sua tomada de decisão;

 

Neste sentido em relação aos relacionamentos que se estabelecem hoje em dia e que muitas vezes adoecem e rapidamente se transformam num pesadelo, devemos considerar:

– A capacidade de amar o outro com todas as qualidades e defeitos e de que forma podemos trabalhar para ultrapassar as adversidades futuras;

– Saber comunicar e evitar tanto distorções como crenças;

– Não promover a gratidão de forma imediata e impulsiva, ignorando as consequências que pode advir de uma relação que ainda é ou pode ser ilusória;

– Ter atenção ao hábito que exprime a autocomplacência ou dependência que conduz a pessoa à falta de uma vida com autenticidade, entusiasmo, adaptação e amor;

 

 

Apesar de nem sempre ser possível antecipar e percebermos se esta relação no futuro irá ser tóxica ou se terminará em violência, é necessário estarmos atentos aos níveis e padrões comportamentais do relacionamento:

– Fazer exigências ou proibirem algo;

– Humilhar o outro;

– Procurar que o outro se coloque em causa frequentemente;

– Isolarem ou coagirem a vítima;

– Provocarem sentimentos de insegurança, medo (seja fisicamente ou psicologicamente);

– Fazerem chantagem emocional ou coagirem o outro no seu sentir “- vês o que me fizeste fazer…!”;

 

Regra geral os agressores tendem a escolher mulheres que identificam como sendo mais frágeis emocionalmente, o que consequentemente dificulta ainda mais a saída destas de relacionamentos abusivos e violentos.

 

Contudo existem certos perfis de agressores que são identificados segundo alguns traços: aquele em que o homem é agressivo em diversas áreas da sua vida e não apenas dentro de casa e um outro perfil que embora seja mais difícil de identificar pelas pessoas que são exteriores ao relacionamento, falamos de homens que conseguem camuflar a sua agressividade, sendo gentis, educados e agradáveis e que no seu seio familiar é considerado agressor.

 

Este último tipo de perfil, por ser mais difícil de ser detectado na maioria das vezes, só é identificado no momento em que a vítima se enche de coragem e começa por relatar episódios de violência àqueles que lhes são mais próximos ao casal e que até conhecem o agressor, sendo mesmo assim e por vezes desencorajadas por amigos ou familiares, que consideram que ela até estará a exagerar.

 

Parece assim existir um ciclo de violência que é recorrente espelhado em várias etapas: existe inicialmente um período de sedução no qual o agressor é gentil e educado e que mais tarde, no seu dia-a-dia vai revelando sinais aos quais a vítima vai negando a si mesma, ignorando-os, até que se decepciona e vê de facto o defeito do outro.

 

A questão é que embora este padrão sirva de referência nos relacionamentos amorosos, no caso da violência doméstica a decepção ganha força, mata sonhos, quando é encaminhada para a agressão, seja ela física ou psicológica (esta última é mais difícil de a mulher se aperceber, interiorizando durante anos as agressões afectando a sua auto-estima).

 

No final deste ciclo é frequente assistir-se à posição do agressor em se desculpabilizar perante a vítima, sendo muito raro que o mesmo tenha a intenção de se desculpabilizar perante a vítima, reconhecendo o seu erro, prometendo que não o voltará a repetir, até que ocorra um novo episódio de violência.

 

Para finalizar é necessário que tanto os adultos (sejam eles cuidadores, educadores ou amigos) como os adolescentes que iniciam relações íntimas estejam conscientes e atentos a qualquer prática que se assemelhe a violência ou que o faça duvidar de si ou até mesmo afastar-se de amigos ou familiares.

 

Nestes casos deve denunciar e partilhar com alguém em quem confie o que se passou.

 

Acreditar nas próprias convicções e valores é essencial para quebrar o medo e a possível vergonha.

 

O respeito, é e deverá ser sempre a sua primeira escolha para que consiga dar o passo e sair da teia do agressor, quebrando o vínculo destrutivo e recorrente não só de insultos como do sentimento de impotência.

 

Neste sentido, a psicologia muitas vezes serve de suporte e amparo para que a vitima consiga romper este ciclo vicioso de violência, possibilitando-lhe num espaço terapêutico, confiável e seguro a compreensão e o encaminhamento necessário para que a mesma perceba de que este ciclo existe.

 

Procura-se nas sessões clínicas não só mostrar à mulher vitima de maus tratos, como confirmar que de facto esta realidade existe nos dias de hoje de forma transversal, e que a mesma foi apanhada num contexto violento e do qual ela não tem culpa  e que muito menos precisará de protelar com a sua participação, existindo sempre estratégias e caminhos alternativos que estarão à sua disposição para que possam sair daquela situação mais fortalecida, recuperando não só a sua integridade como a sua dignidade.

 

2019-02-14T01:53:51+00:00